Treinador do Sevilha critica indiferença perante guerras e lamenta distanciamento entre futebol e adeptos

O treinador do Sevilha, Matías Almeyda, deixou uma reflexão profunda sobre o papel do futebol na sociedade durante a conferência de imprensa de antevisão ao encontro frente ao Barcelona. O técnico argentino abordou a forma como o desporto continua a decorrer normalmente apesar de crises globais, criticando aquilo que considera ser uma crescente indiferença perante problemas como a guerra e a fome.

A intervenção surgiu depois de Almeyda ser questionado sobre o caso de uma adepta do clube andaluz que enfrenta um cancro e que tem recebido apoio financeiro de muitos adeptos do Sevilha. A partir desse tema, o treinador alargou a resposta a uma reflexão sobre a dimensão emocional do futebol.

«O futebol tem algo muito bonito: desperta sentimentos. Para mim, bem utilizado, é um remédio para muita gente, como para muitos de nós», afirmou.

O antigo internacional argentino recordou também o impacto pessoal que o futebol teve na sua vida, salientando as oportunidades que o desporto lhe proporcionou ao longo da carreira.

«Que gratidão que o futebol nos permita conhecer, pelo menos a mim, diferentes culturas e países, viajar de avião, conhecer outras pessoas, comer coisas boas… se não fosse o futebol, pessoalmente não sei que outro trabalho teria feito».

Apesar desse reconhecimento, Almeyda defendeu que o futebol reflete inevitavelmente o estado das sociedades atuais. O treinador considerou preocupante a forma como a modalidade prossegue a sua atividade enquanto, em várias regiões do mundo, persistem conflitos armados e crises humanitárias.

«Há guerras [a acontecer] e nós estamos a falar de um jogo; isso quer dizer que não nos importamos com nada. É a parte triste, que o negócio tem de continuar e nós estamos a partir a cabeça a ver como vai ser a equipa que vai jogar. Então, passamos de algo muito bonito para algo quase desumano».

Crítica às prioridades da sociedade

Na mesma intervenção, o técnico argentino questionou as prioridades globais, estabelecendo uma comparação entre os investimentos militares e os problemas sociais que continuam por resolver.

«Se cada míssil que lançam vale 50 milhões de euros e depois dizemos que em África há fome, porque é que em vez de lançar mísseis não levamos 50 milhões de euros em arroz e educação? Continuamos a viver num mundo para nós mesmos.»

Distanciamento entre clubes e adeptos

Almeyda abordou ainda a evolução do futebol nas últimas décadas, lamentando aquilo que considera ser uma perda de proximidade entre equipas e adeptos. O treinador recordou tempos em que os treinos eram abertos e o contacto com os adeptos era mais frequente.

«Há trinta anos havia adeptos a ver os treinos. Que feio que isso se perdeu. Perdemos isso entre todos».

O técnico explicou também que tenta contrariar essa tendência sempre que possível, convidando pessoas para assistirem a sessões de trabalho e defendendo uma maior aproximação entre os diferentes protagonistas do futebol.

«Gostaria que voltasse esse folclore do jogo, que as pessoas desfrutassem e estivéssemos mais juntos. Reparem que jornalistas, treinadores, árbitros… está tudo muito separado».

Para o treinador do Sevilha, esta realidade está ligada a um problema mais profundo que atravessa a sociedade atual.

«Isto não era assim em nenhuma parte do mundo e acompanha o mesmo processo de haver uma guerra e continuarmos a jogar», concluiu, acrescentando que, na sua opinião, «socialmente, o mundo está a retroceder em todos os aspetos e todos fazemos parte disto».